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domingo, 15 de março de 2020

Trevas


Fechou o chuveiro e abriu a porta do boxe. Foi recebida pelo abraço gelado do ar, que logo deu lugar ao da toalha. Enquanto ela se enxugava, uma sensação estranha. Olhou ao redor e levou algum tempo para perceber seu reflexo no espelho acima da pia. O banheiro sem janelas sempre deixava o espelho embaçado. Não foi o caso desta vez.

Seu reflexo não poderia estar mais nítido, parado ao lado da porta. O estranhamento evoluiu para um incômodo ainda maior ao perceber-se incapaz de sustentar o reflexo do próprio olhar, então deu dois passos para o lado a fim de sair da frente do espelho. Curvou-se para enxugar as pernas e um arrepio percorreu-lhe o corpo. Um movimento às suas costas. A sensação de não estar sozinha.

Num ímpeto, levantou-se e virou para esquadrinhar o banheiro. Nada. Olhou novamente para o espelho, e do ângulo em que estava podia ver apenas o reflexo da porta. Desejando pela primeira vez que não morasse sozinha, deteve seu olhar longamente no reflexo da maçaneta, apreensiva. Nada.

Ora, que besteira! Esperava que a maçaneta se movesse sozinha? Abaixou-se para pegar as roupas sujas no chão e tentou pensar em algo menos perturbador. Mal levantou e seu coração disparou.

Num canto do espelho, na moldura mais próxima a ela, jurava ter visto o vulto de uma cabeça aparecer e desaparecer. Como se algo dentro do espelho se inclinasse para dar uma rápida espiada no banheiro. Tão rápida que mal acontecera e ela já questionava se não estava imaginando coisas. Não era possível. Provavelmente estava sugestionada pelo incômodo momentâneo. A apreensão transforma qualquer estalar de móvel em tiro de escopeta. Desejava sair correndo do banheiro, mas se forçou a comportar-se como um ser racional. Optou por voltar à frente do espelho para provar a si mesma que tudo estava bem e continuou seu ritual pós-banho.

Olhou para baixo para calçar os chinelos que costumava deixar embocados quase embaixo da pia. Quando levantou a cabeça, viu que seu reflexo estava ainda completando o movimento que ela já havia terminado. Como se o reflexo do espelho estivesse atrasado. Dessa vez teve certeza de não ter imaginado. Novamente, sentiu uma presença atrás de si, muito perto da nuca, e virou-se para olhar.

Mais uma vez, nada. Quando voltou-se para o espelho, ele havia abandonado qualquer sutileza. Deparou-se com o reflexo das costas da própria cabeça, que ainda não havia virado, numa extensão perturbadora do atraso anterior. Em choque, ela permaneceu imóvel. Só conseguia fitar o reflexo da própria nuca. Lentamente, a cabeça no espelho começou a se mexer, virando-se para encarar a própria dona, que foi tomada pelo pavor.

No rosto deformado que a encarava da superfície lisa do espelho, os olhos haviam sido tomados por buracos negros e esfumaçados que vertiam pequenos filetes de sangue, num choro que contrastava horripilantemente com a enorme boca sorridente. Os lábios iam de orelha a orelha e exibiam centenas de grandes dentes pretos, muito finos e pontiagudos, que se entrelaçavam perfeitamente e produziam um sorriso macabro que tomava mais da metade do rosto. O sangue que escorria dos olhos avançava até os dentes pretos e se perdia por entre eles, conferindo-lhes um brilho vivo escuro. A pele, de um cinza com manchas esverdeadas, tinha aspecto podre e revelava veias roxas de diferentes espessuras sob sua superfície.

Tentando apreender tudo que via no próprio reflexo, ela soltou um gemido desforme de desespero e sua visão estremeceu. Sentia que seu corpo estava prestes a ceder completamente a qualquer momento. Reuniu todas as forças que tinha para se manter consciente e virou-se para a porta, finalmente livre do transe que a paralisara até aquele momento, desesperada para sair daquele lugar. Enquanto sua mão cruzava o ar em direção à maçaneta à sua esquerda, viu de esguelha que seu reflexo deformado já havia alcançado a própria porta virtual e girava a tranca. No mesmo momento, a tranca da porta real também girou. Ela tentou destrancá-la, mas o trinco nem se mexia. Alucinada e aos prantos, usava todas as suas forças contra a maçaneta. Puxava, empurrava, batia. Em vão.

O pesadelo que se formara no espelho apenas a observava com aquele sorriso bizarro e imóvel, parecendo divertido. A mulher, exausta, abandonou seus esforços e encarou o espelho, trêmula. Ele abriu ainda mais seu sorriso e começou a sacudir de leve os próprios ombros, numa gargalhada contida. Lentamente, ele levantou a mão à altura da própria cabeça, o dedo indicador em riste revelando a pele cinza e a unha amarela carcomida. Mantinha o dedo parado no ar, como quem quisesse apenas exibi-lo para a mulher, que estava totalmente atordoada. Sua gargalhada foi se intensificando, em franco êxtase. Enjoada e tonta, a mulher acompanhou o dedo podre enquanto ele se dirigiu vagarosamente na direção da parede próxima à porta. Ria cada vez mais alto, agora com a boca medonha bem aberta, emitindo um som absurdo, inumano, jamais antes ouvido por qualquer criatura deste mundo.

Ela tapava os ouvidos, tentando proteger-se do som quase insuportável. Quando viu que o dedo parou perto do interruptor de luz, ela foi dominada pelo mais absoluto terror. Ouviu-se o clique do botão e o banheiro mergulhou em trevas conforme as gargalhadas grotescas se fundiam ao urro abismal que explodiu da mulher.

***

Algum tempo depois, a porta do banheiro se abriu. O que quer que tenha saído de dentro já não era mais ela.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Monstros

Ela não sentia medo deles. Tinha apenas 9 anos, uma idade em que o medo de monstros ainda é mais do que natural, e já os temia tanto quanto a uma joaninha. Já não se identificava mais com as colegas da escola, que a cada semana apareciam com toda a sorte de histórias e nomes novos, supostamente assustadores. Não para ela.
Não que não acreditasse nas amigas, ou mesmo em monstros. Pelo contrário. Tanto acreditava que por várias vezes via formas estranhas demais para serem obras do acaso surgindo nas sombras dançantes das árvores, projetadas na parede de seu quarto durante a noite. Era comum também ouvir movimentos embaixo da cama, como se unhas arranhassem o soalho de madeira do quarto. Sempre que baixava a cabeça para flagrar o monstro lá embaixo, nada via, mas podia jurar que sentia algo farfalhar em seus calcanhares toda vez que colocava os pés no chão para levantar da cama.
A visita mais constante que recebia, porém, era a do par de olhos vermelhos que apareciam na fresta do antigo armário de seu quarto, cuja porta defeituosa não mais fechava por completo. Era um olhar vivo, embora cansado. Levou algum tempo para deixar de considerá-lo ameaçador e perceber que na verdade transmitia certo abatimento; talvez até vergonha. Com efeito, lembravam-na dos olhos tristes e entregues que sua mãe carregava na maior parte do tempo, com a diferença que os dela eventualmente amanheciam roxos em vez de vermelhos.
Sua mãe era uma pessoa quieta. Estava sempre cabisbaixa, fosse quando o marido chegava da noitada com os amigos, fosse enquanto realizava as tarefas caseiras durante o dia. Tarefas essas que eram prontamente criticadas, aos berros, pelo marido, mal este colocava os pés dentro de casa.
Não, não tinha medo dos olhos no armário. Nem de qualquer outro monstro. Por que teria, se nenhum deles jamais havia feito mal algum a ela?
Medo mesmo, daqueles paralisantes, ela sentia sempre que a porta de seu quarto era aberta lentamente no meio da noite, revelando uma silhueta sombria. Seu pequeno coração saltava e batia violenta e audivelmente, o que parecia agradar o invasor, que se detinha algum tempo no batente da porta para saborear o que estava por vir. Inutilmente, ela fingia estar dormindo, traída impiedosamente por sua respiração pesada e falha e pelos tremores que lhe percorriam o pequeno corpo. Nada que jamais tivesse impedido a silhueta de seu pai de entrar no quarto, avançar até a cama da filha e se meter embaixo das cobertas, sussurrando em seu ouvido que era hora de brincar.
A partir desse ponto, só lhe restava virar para o lado oposto e cair no choro, cujo som era sufocado pela manzorra do sujeito, que lhe tapava a boca e dominava toda a parte inferior da cabeça.
Virou-se para fitar o armário. E lá estavam eles de novo, os impotentes olhos vermelhos, observando. E tudo o que a menina conseguia fazer era devolver-lhe o olhar, carregado de lágrimas, frustração e decepção. Como se perguntasse a quem estava lá dentro por que não saía para salvá-la.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Um filme

Sozinha, ela aguarda pacientemente que algo aconteça. Já estava ali há um bom tempo, e estranhando que nem mesmo um pano de fundo para a história tivesse sido posto. É então que, de um canto, surge um rapaz bonito e musculoso, exibindo um sorriso cativante. Ele chega andando de peito estufado e para perto da moça, olhando para os lados, fingindo não notá-la. Sem entender o que ele faz ali, ela o encara, como se pedindo uma explicação. Percebendo que o sujeito não vai se explicar, ela quebra o silêncio:
— Opa, tudo bom?
— Tudo certo — responde ele, que continua sorrindo e olhando para o nada.
Ainda sem entender, ela decide ser mais direta.
— Escuta, desculpa perguntar assim, mas quem é você?
— Imagina, não tem problema perguntar — responde ele, finalmente virando-se para ela, apertando sua mão mais forte do que o necessário e dizendo: — Prazer, moça, eu sou o protagonista. Só estou esperando o filme começar.
— Hã? Do que você está falando? Eu sou a protagonista.
Ele para, em choque; dá uma conferida nela de cima a baixo e solta uma gargalhada.
— Protagonista? Você?! Minha querida, com essa aparência você não conseguiria sequer ser meu interesse amoroso, quanto mais protagonista!
— Sim, sou a protagonista. Eu estava aqui antes de você, só esperando algum conflito surgir pra dar início ao filme. E quem disse que eu teria interesse em ser seu interesse?
— Como assim? Olha pra mim, garota — diz ele, gesticulando para o próprio corpo. — Por acaso você é lésbica?
— Não, só não estou interessada em você. Estou muito bem sozinha, obrigada.
De outro canto, surge outra mulher, com ar infantil.
— E você, quem é? — pergunta a protagonista.
— Olá! Eu sou uma personagem unidimensional. Sou extremamente bonita e gostosa, mas não tenho consciência disso. Só que lá no fundo eu tenho sim. Até este exato momento, eu só me relacionava com homens que não prestam e só me sentia atraída por eles, mas a partir do início do filme, convenientemente, algo em mim muda e começo a buscar alguém que não seja um cafajeste completo. Sou meiga e fofa, e consigo oscilar perfeitamente entre a moça tímida e puritana e a descolada sensual e provocativa. Não tenho personalidade própria, já que meus gostos e vontades mudam de acordo com a necessidade do roteiro.
— A-há! Você deve ser meu interesse amoroso! — anima-se o rapaz.
— Eu mesma!
— Encantado — diz ele, tomando-a pela cintura e puxando-a para perto. Sem nenhum motivo aparente, o casal começa a dançar lentamente, girando sem sair do lugar, encarando-se apaixonadamente, os olhos brilhando.
A protagonista acompanha tudo, boquiaberta.
— Gente, que amontoado de clichê! É disso que eu vou participar?! Eu vim aqui para me expressar, para passar por algo significativo, algo profundo e complexo que faça a audiência de fato se envolver com a história e se importar com os personagens, algo que extraia todo tipo de sentimentos e emoções das pessoas.
Eles param de dançar e o rapaz volta-se para a protagonista.
— Mas que conflitos você poderia ter, estando aqui sozinha? Nem par romântico você tem, minha cara. Como poderia ter alguma motivação? E outra, nessa sua historinha de merda, onde ficam as explosões, as perseguições? Ou os aliens, os efeitos visuais? Qual é o meu superpoder? Onde entra a parte em que eu resolvo toda a situação e saio só com alguns arranhões?
— Amor, afinal quem é essa daí?
— Diz ela que é a protagonista.
O casal explode em risadas. Param somente quando uma limusine branca entra em cena e estaciona bem perto dos três. Eles observam enquanto do banco traseiro desce um sujeito careca, trazendo um charuto na boca. Era tão gordo que o terno que vestia poderia ser usado como cabana. Assim que ele se levanta do banco, a limusine range audivelmente, num suspiro misto de alívio e gratidão.
— Só pode ser o vilão! — exclama o casal, em uníssono.
— Meio ofensivo... — diz a protagonista.
— Também achei — diz o careca, pegando algo de dentro do paletó. — Poderiam pelo menos ter esperado eu sacar a arma.
A protagonista gira os olhos, incapaz de acreditar em tamanha falta de originalidade.
— Estou procurando o protagonista deste filme — diz ele, apontando a arma para o rapaz e sua amada, que, por sua vez, apontam o dedo para a protagonista, amedrontados. O vilão vira a arma para a moça e a mede de cima a baixo. Sua gargalhada é ensurdecedora. Nem mesmo o casal consegue se segurar, rindo junto com o vilão, cujo rosto e careca ficam vermelhos e suados.
Secando as lágrimas, ele volta a apontar a arma para o casal, que para de rir abruptamente. O rapaz se coloca à frente de sua amada, protegendo-a.
— Tá bom, tá bom! Você me pegou, ok?! Eu sou o protagonista. Afinal eu era o único homem por aqui... Mas antes de eu conseguir virar a situação de forma absurdamente inverossímil, matar você e encerrar este filme, precisamos definir qual é o papel dessa mulher. Tolero qualquer coisa no meu filme, menos ponta solta! — Ele para e observa a protagonista, considerando as possibilidades. — E se ela fosse sua esposa? — pergunta ao vilão.
O sujeito coça a careca com a ponta da arma, ponderando.
— Hum... Nah, acho que seria mais orgânico ela ser uma coadjuvante, tipo sua irmã, amiga ou algo assim. — Ele estala os dedos, animado. — Já sei, ela pode ser sua friendzone!
— Tá difícil vocês entenderem que eu sou a protagonista, hein!
— Ou ela pode ser minha amiga lésbica — diz o interesse amoroso; discutiam como se a protagonista sequer estivesse presente. — Uma amiga com quem eu teria tido experiências homossexuais na faculdade, resultando em histórias que eu te contaria no começo do nosso relacionamento pra você me achar mais interessante e ousada.
— Ótima ideia, querida! Você bem que poderia ter tido uma amiga lésbica mais bonita, mas pra isso até que ela serve.
— Cara, já falei que sou hétero...
— Enfim, não importa! Preciso acabar logo com o protagonista e essa discussão não vai dar em nada. Por mim fica como ponta solta mesmo e que se dane! — diz o vilão, voltando a apontar a arma para o rapaz, prestes a puxar o gatilho.
Fora de quadro, surge o som de pneus derrapando. Que logo dá lugar ao som de metal colidindo e se deformando. E assim mais um carro entra em cena, desta vez em pleno processo de capotagem. O monte de metal retorcido avança rapidamente em direção ao casal, até que uma “quina” do carro bate no chão e o impulsiona para o alto, fazendo-o passar por cima dos dois em câmera lenta e indo de encontro ao vilão em alta velocidade. No susto, ele larga a arma, instantes antes de ser esmagado contra sua própria limusine. O resultado desse sanduíche automobilístico deveria ser uma explosão de carne, sangue e gordura, mas a cena é cortada antes para deixar a ideia apenas sugerida. Tudo pelo bem da classificação indicativa.
Voltamos então para a arma, que ainda está caindo, graças à maleabilidade do tempo que este tipo de mídia proporciona. Assim que atinge o chão, ela dispara sozinha e atinge a nossa pobre protagonista em cheio no coração, dando-lhe tempo apenas para sentir-se grata por estar deixando este filme. Ela cai morta sob os gritos de excitação do casal.
— Era disso que eu estava falando! Agora sim isso aqui está com cara de Hollywood!
— Verdade, já estava estranhando!
A porta do carro capotado se abre e o motorista sai dele, cambaleando. Ninguém parece notar que ele tem apenas um filete de sangue saindo do nariz, apesar de o carro parecer ter saído de um compressor de ferro-velho. Depois de sair do carro, ele se apruma e olha a cena à sua volta, analisando a situação.
— Você nos salvou! Muito obrigada! — diz a moça.
Passada a excitação inicial, o protagonista franze a testa, confuso, tentando entender:
— Mas peraí, qual é o seu papel no filme? Quem é você?
O motorista termina de conferir quem está vivo e quem está morto na cena e vira-se para o casal. Exibe um sorriso de satisfação e responde:
— Deus ex machina.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Pontuação

— O travessão tá errado aqui, cara. Ele não serve pra isso. Serve pra indicar diálogo ou (assim como os parênteses [e dentro deles os colchetes]) pra comentar ou acrescentar informações ao texto — uso que não é muito comum em textos mais informais.
— Ah, saquei. E pra que servem os dois-pontos?
— É muito simples a função dos dois-pontos: eles são usados pra indicar que em seguida alguma coisa será explicada.
— E o ponto de interrogação?
— Caramba, só falta me falar que também não sabe pra que serve a exclamação!
— Ah, pode pular a exclamação porque essa aí eu tenho quase certeza absoluta que sei.
— Tá bom, olha, vamos dar uma passada rápida pelas pontuações básicas, ok? Começando pela função das reticências, que...
— Servem pra marcar a interrupção de uma fala que ainda não estava terminada, pra indicar pausas longas numa fala enquanto se pensa no que vai falar e pra... e pra... hãã...
— E pra deixar alguma ideia sugerida ou implícita na fala, interrompendo-se antes de concluir. Mais ou menos como a sua alfabetização... Prosseguindo, as chamadas “aspas” são usadas pra destacar um exemplo ou uma citação que será feita. Por exemplo: “Foi aí que o professor de português falou: ‘Aspas simples são usadas dentro de aspas duplas.’ Só que a pontuação nesses casos é uma confusão, e nem mesmo o professor soube dizer se o ponto fica dentro ou fora das aspas”.
— E a vírgula, serve pra que mesmo?
— A vírgula, como você já deveria saber, indica uma pausa breve na leitura do texto e serve para diversas situações, como listar informações, separar frases encadeadas entre si e, assim como o travessão e os parênteses, para separar o aposto, entre outras funções. A vírgula é usada até pra separar o vocativo, cara! Ah, e muita gente acha que vírgula é a mesma coisa que ponto e vírgula; porém, o ponto e vírgula indica uma pausa média na leitura e é utilizado pra interromper um raciocínio pra depois continuá-lo, quase que começando uma frase nova, sabe? Serve pra separar uma série de itens elencados, e costuma aparecer bastante antes de conjunções, tais como: entretanto; contudo; todavia; logo; portanto; assim etc.
— Ah, mas agora você foi sacana também. Dava muito bem pra ter usado vírgulas ali, vai.
— Sacanagem é um sujeito como você ter recebido um diploma do ensino médio. Enfim, é isso, acho que cobrimos o básico. E agora chega dessa história porque detesto metalinguagem. Baita dum recurso vazio e pobre de se usar assim pra qualquer coisa.
— Metalinguagem. Meta... metalinguagem... Sim, claro, é verdade... Meta. Linguagem. Metalinguagem. Muito pobre mesmo, tem razão... Se escreve M-E-T-A-L-I-N-G-U-A-G-E-M, se bem me recordo. Vem da junção de “meta” com “linguagem”... Rá, quem ainda usa?! Pff... Metalinguagem.
— ...
— Mas vem cá, o que é mesmo met...?
— Ahhh, não! Desisto de você, cara, não quero mais papo contigo.
— Mas por quê?
— Porque não. E ponto-final!
— Droga, o único que eu sabia tava errado. Jurava que esse aí era o de exclamação.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Uma história

Não se vê por aí, este tipo de história. Provavelmente porque não funcionaria. Uma história em que conflitos não surgem, mudanças não acontecem. Eventos não se sucedem. Ideias não têm corpo. Sentimentos não têm vez. Nem voz. Uma história sem protagonista, sem antagonista. Sem personagens. Não se odeia, não se ama. Nem comédia, nem drama.

Uma história que não tem início por não ter de onde sair, que não tem meio por não haver um para a conduzir, que não tem fim por não ter aonde ir. Com nada interage e é indiferente ao que a rodeia. Por nada é permeada e nada ela permeia. Uma narrativa que não cria expectativa, que não tem resolução. O próprio tempo em suspensão.

Um conto que nada conta. Um narrador que nada narra. Por muito tempo, uma história assim não se mantém, e já vão faltando palavras que permitam-lhe ir além.

Nada nesta história existe. E, ainda assim, a existência desta história persiste.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Sozinhos no Universo

Entrou em casa e largou suas coisas numa poltrona, avisando em voz alta que havia chegado. Sem ouvir resposta, foi até a cozinha lavar as mãos. Pela janela em cima da pia, ele a viu no alto da pequena colina próxima, olhando pensativamente para as estrelas. Saiu para a noite clara pela porta dos fundos e atravessou o gramado. Subiu calmamente a colina e parou ao lado dela.
— Ficou sabendo da descoberta de hoje? — perguntou ela tranquilamente, sem tirar os olhos do céu.
— Do planeta? Fiquei, sim. Praticamente do mesmo tamanho do nosso, está na zona habitável de sua estrela e possui água no estado líquido. Excitante, não?
Ela virou para olhá-lo e sentiu um calor no peito ao vê-lo com um sorriso acolhedor no rosto.
— Pena que esteja tão longe. Qual a distância mesmo? — perguntou ele.
— Não lembro exatamente, sei apenas que uma simples troca de mensagens levaria milhares de anos para acontecer. Se houver vida inteligente, claro — adicionou rapidamente, falhando miseravelmente na tentativa de parecer ponderada.
— Tarefa para nossos descendentes, então — disse ele, acariciando a barriga dela.
— Ainda assim, na escala astronômica, a distância é ridiculamente pequena. Já imaginou? Vida na nossa galáxia. — Ela voltou a olhar para o céu e ele pôde ver o brilho em seus olhos. — Não num lugar longínquo do Universo, na nossa galáxia! No nosso “quintal”. Se a vida (mesmo com centenas de bilhões de galáxias, cada uma com centenas de bilhões de estrelas, que por sua vez possuem sabe-se lá quantos planetas em suas órbitas) achar por bem aparecer num planeta vizinho ao nosso, seria seguro supor que o Universo inteiro esteja transbordando de vida! Em todos os cantos e de todas as formas. Uma expansão gigantesca dos nossos horizontes. Imagine as diferentes culturas, as diferentes crenças, as histórias das civilizações, as espécies e anatomias, as línguas, as guerras e sistemas políticos, o desenvolvimento científico e tecnológico, as invenções, os bons e maus momentos, os heróis e os vilões, os artistas e as obras.
— Nem me fale, querida. Ainda tenho uma infinidade de livros para ler que foram escritos por aqui mesmo e você aí querendo aumentar a lista indefinidamente.
— Besta — disse, rindo. Ela baixou os olhos para o chão e subitamente ficou séria, esforçando-se para acreditar em suas próximas palavras: — Tenho certeza de que alguém em algum lugar do Universo está neste momento olhando para as estrelas e pensando exatamente nas mesmas coisas.
Mas ela não tinha. Como poderia quando o Universo respondia apenas com o silêncio? Continuou olhando para baixo e se deixou tomar pela ideia da solidão e do vazio cercando-os. Percebendo seu conflito interno, ele logo tratou de distraí-la.
— Olha que bonito, amor. Whovian e Trekker já estão se pondo — disse ele, apontando para o horizonte.
A noite foi ficando mais escura e uma brisa começou a soprar. Ainda no alto da colina, os dois entrelaçaram suas caudas carinhosamente e observaram em silêncio as duas luas tocarem o horizonte e desaparecerem sob ele.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Onde eles estão?

Porque é óbvio que em algum lugar eles estão. De quem estou falando? De quem você quiser. Preenchido o requisito básico de estarem vivos, é claro, estou falando de quem você quiser.

Seus ídolos, por exemplo. O seu cantor favorito está em algum lugar da superfície da Terra neste exato momento. Sua atriz favorita está fazendo o ar entrar e sair dos pulmões agorinha mesmo. O diretor que você mais admira talvez esteja pensando, neste segundo, em algum aspecto do filme que você virá a adorar em breve. A escritora que mais te inspira, que mais te desafia e mais te provoca pode estar agora sofrendo para colocar no papel um sentimento que você divide com ela e ainda nem sabe. O comediante que consegue fazer você rir enquanto reflete sobre a vida pode estar criando uma piada genial enquanto você está lendo. O atleta que você mais admira está em algum lugar, com seu coração bombeando sangue pelo corpo. Independentemente de onde estão e do que estão fazendo agora, eles estão existindo.

Sempre que me pego pensando nisso, fico fascinado pela bizarrice da coisa. É estranho, não parece real. É como se no presente essas pessoas não existissem de fato. Existiram somente ao criar as coisas que tanto admiramos e durante o período em que as apreciamos, e depois disso elas somem no tempo e no espaço; mergulham no éter. Prontas para voltar à existência apenas quando nos convir. Até onde sei – e até que meus olhos me provem o contrário – essas pessoas são apenas projeções. Talvez daí venha a vontade que os fãs têm de ver seus ídolos com os próprios olhos; flagrá-los no tédio da vida real que engole os meros mortais para torná-los mais palpáveis, de certa forma.

O mesmo raciocínio se aplica também ao futuro amor da sua vida (ok, não sei qual é o status de relacionamento do leitor, mas usei “futuro” porque não acho que você estaria lendo estas bobagens se já tivesse alguém para chamar de seu). Só que aqui a certeza da existência... bem, não existe. Nada garante que haja alguém para mim ou para você por aí. Mas digamos – em nome de um falso otimismo utilizado pelo autor apenas para não deprimir o leitor – que exista essa pessoa para você. E supondo que uma diferença muito grande entre as idades de um casal te incomode (caso contrário, sua metade da laranja talvez nem tenha nascido ainda; afinal, em alguns casais, um deles já tinha mais de vinte, trinta ou sei lá quantos anos antes mesmo que o outro tivesse nascido), ela também já se encontra em algum lugar do planeta neste momento, respirando, cérebro trabalhando e tudo o mais. E mais uma vez eu me fascino ao imaginar que apenas a sucessão de alguns eventos, cada um no seu devido tempo, levará vocês dois a se encontrar.

Você talvez até já tenha pegado o mesmo ônibus que essa pessoa, ou ficado atrás dela na fila da loteca, ido no mesmo show que ela, xingado ela no trânsito, achado a moeda que ela deixou cair na rua, cantado “Parabéns” pra ela quando alguém “puxou” na lanchonete, atendido o telefone quando ela ligou por engano para sua casa ou até mesmo a tenha observado com interesse e desejo, mesmo que não vá se lembrar disso quando se conhecerem de fato.

E eu, grande fã do acaso, gosto de pensar que entre as pouquíssimas pessoas que lerão este texto, talvez esteja a mulher que um dia eu conhecerei e que despertará em mim o incontrolável desejo de fazê-la feliz.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Chute na fé

Final de campeonato. Um dos importantes. A partida está empatada aos 47 minutos do segundo tempo, como não poderia deixar de ser para que o autor alcance os efeitos desejados. Durante uma jogada ofensiva de um dos times, o zagueiro do time adversário consegue roubar a bola e a isola, o que se transforma num lançamento providencial para um companheiro atacante, numa jogada que o zagueiro mais tarde admitirá ter sido planejada.

A bola viaja pelo ar enquanto a torcida enche o mesmo com gritos de entusiasmo. O craque que inexplicavelmente ganha milhões por mês domina a gorduchinha praticamente sozinho no campo de ataque e avança em direção à área. O goleiro sai do gol para fechar o ângulo, na esperança de se sair tão bem na tarefa quanto seu esfíncter se saiu ao se fechar. O atacante invade a grande área, avalia a posição do goleiro, escolhe um canto do gol, prepara o chute e...

E aí ele sente.

Num daqueles momentos que só a ficção medíocre pode proporcionar, o mundo todo para e ele sente. Sente que a Dona Brigite escolheu um lugar diferente do sofá para se sentar. Sente que o Almeidinha não colocou o copo com água em cima da televisão. Que o Leandro não vestiu aquela mesma camisa de sempre (parte do uniforme do time nos anos 80) porque já não mais cabia nela. Que o Tuco lá da pizzaria não colocou aquele fio de pentelho na massa da primeira pizza do dia, o que já havia ajudado a garantir o campeonato para o time duas vezes no passado. Como ter certeza da vitória quando seus torcedores abandonam a força desses pequenos rituais?

Porém, para seu alívio, ele sente também que o Cabeleira lá na arquibancada está usando sua cueca da sorte, aquela que ele usa em todos os jogos e não lava nunca, mesmo que suas nádegas sejam sua principal fonte de suor. Sente que Alzira fez sua parte ao pisar no chão da cozinha com o dedão esquerdo do pé direito no terceiro azulejo da coluna do meio contando em ordem crescente da direita para a esquerda. Que Arthur deixou de se masturbar no dia anterior ao jogo, crente de que isso azarava o dia seguinte.

Mas não são apenas os torcedores do seu time que têm acesso a essas táticas, e o nosso atacante sente que do lado de lá também houve mobilização por parte de uns e abandono da causa por parte de outros. O casal Júlia e Ricardo, por exemplo, optou pela posição do “frango assado” no sexo pré-jogo, que vinha se mostrando mais eficaz do que o “coqueirinho” (apesar de a “bate-estaca” gerar bons resultados também). Já Clarissa cansou de piscar os olhos freneticamente enquanto seu time está com a posse da bola e decidiu que a vida é muito curta para acompanhar um esporte que pode acabar em empate, ao passo que Feliciano continua tomando o próprio sêmem em dia de jogo, tática que se mostrou eficaz em apenas 24% das vezes – o que talvez indique que o futebol já não tem qualquer peso sobre a decisão do rapaz de ingerir o viscoso líquido.

E aqui o atacante sente também todas as orações sendo feitas por torcedores de ambos os times, pois é de conhecimento geral que Deus é um grande fã do esporte e costuma meter a mão nos resultados de acordo com a frequência e intensidade dos pedidos. Isso, claro, somente quando sobra um tempinho da cansativa tarefa que é ignorar as orações de todo o resto da humanidade.

Curiosamente – e apesar de toda a relevância dos dados levantados pelo nosso atacante –, assim que o mundo volta a girar e o movimento do chute se completa, é o simples acaso que entra em cena para definir o resultado do lance, do jogo e de todos os eventos que se seguem. E os mais céticos diriam que assim sempre foi e sempre será.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Tão fácil quanto tirar doce de criança

Seria um ditado verídico? Enquanto observava aquele menino no carrinho de bebê chupando um pirulito, a dúvida cresceu desmedidamente dentro dele. Por algum motivo, aquilo havia se tornado importante. Perdera a noção do tempo e encontrava-se parado com a boca entreaberta, a mão suspensa no ar ainda travada no movimento de colocar o saco de nozes no carrinho de compras. Passados mais alguns segundos, reconheceu que não seria muito sensato matar a curiosidade e voltou sua atenção para os preços marcados na prateleira. Apenas por alguns instantes.

Relutante, olhou novamente para a criança. Estava sozinha na ala de congelados do supermercado, do outro lado do corredor central que divide todas as alas ao meio. Não parecia notar sua presença, apenas tinha olhos para seu pirulito. Mesmo que notasse, não poderia fazer muita coisa para impedir. Quem se utiliza de um carrinho de bebê como meio de transporte não costuma passar a impressão de possuir grandes habilidades em autodefesa.

"Dane-se". Que mal faria surrupiar-lhe o doce? Seria por uma boa causa, ou assim lhe pareceu naquele momento. Abandonou as compras e partiu em direção ao menino. Cruzou o corredor central olhando por cima do ombro e para os lados, temendo algum flagrante. Ninguém, o mercado parecia deserto. Era muita sorte para uma pessoa só, e seu êxtase crescia exponencialmente a cada passo. Chegando bem perto, parou de frente para o menino, que o olhou com um sorriso. Ele retribuiu o gesto com uma versão psicótica do próprio. Abriu os dedos gorduchos da criança, tomou-lhe o pirulito e colocou-o na própria boca.

Mal podia acreditar. O estupor era indescritível. Completamente descabido, era verdade, mas ainda assim orgástico. Sentia-se realizado, completo. Sorriu com o pirulito na boca, o olhar vazio e distante. E assim permaneceu por um instante que pareceu durar horas.

A criança, com os reflexos de alguém que ainda não os desenvolvera completamente, começava a dar falta de seu doce. Lentamente, contraiu o rosto. Sem dispor de lágrimas prontas para a situação inesperada e injusta, apenas abriu a boca, fechou os olhos e berrou.

— ...porque semana passada o preço do tomate era um assalto, ainda bem que... — ia dizendo uma mulher que surgira do nada para outra cuja materialização ele jurava ter testemunhado. Ela parou. E então, olhando da criança para o homem e de volta para a primeira: — O que você tá fazendo com meu filho?!

Resgatado de sua pequena viagem, tirou o pirulito da boca e apenas devolveu o olhar. Se ele ao menos se lembrasse como pronunciar palavras, talvez pudesse arriscar uma tentativa de explicação, mesmo que nenhuma lhe ocorresse no momento. Depois de pensar alguns segundos, concluiu que sua mudez temporária não era de todo mal, já que a única coisa que lhe passou pela cabeça não iria melhorar sua situação. Tinha certeza de que naquele momento a mãe não seria bem receptiva a uma lição sobre os perigos de se deixar uma criança sozinha com um pirulito nas mãos. A mulher que acompanhava a mãe insistiu:

— Hein? Por que você pegou o pirulito do menino?!

E aqui o tempo pareceu ter acelerado para recuperar o atraso. Instantaneamente, o supermercado pareceu ganhar vida e uma multidão se fez presente.

— Como é? — se assustou um senhor que ia empurrando um carrinho.

— Ele encostou no garoto? — perguntou um rapaz para a namorada.

— Ele pegou... — começou uma jovem de um lado.

— ...no pirulito do menino? — completou uma senhora de outro.

— Abusou da criança?! — se espantava mais alguém.

— Sem-vergonha!

— Desgraçado!

— Seu filha da puta!

— Alô, é da polícia? Exatamente, o pedófilo tá assediando geral aqui! — dizia uma moça ao celular.

De um ponto cego, um punho cortou o ar em sua direção e o atingiu em cheio no rosto, com força suficiente para arrancar um dente. E assim o fez.

Tonto e cambaleando, ele largou o pirulito. Acolheu com sucesso mais dois punhos fechados no rosto antes mesmo que o doce tocasse o chão. Caiu e continuou apanhando de todos os lados. Ao longe, pensou ter ouvido o som de sirenes, até que um chute no nariz recebido de uma garotinha que aparentemente confundira sua cabeça com uma bola de futebol americano finalmente o desacordou.

...

Minutos mais tarde, recuperou a consciência e sentiu gosto de ferro. “Ditado inverídico”, concluiu mentalmente, soltando uma cusparada vermelha. Ao tentar levar as mãos ao nariz recentemente remodelado, percebeu que elas estavam algemadas às suas costas. Se encontrava na calçada em frente ao mercado e uma linda policial vinha para ajudá-lo a se levantar. Foi bem menos delicada do que sua beleza poderia ter sugerido.

— Ora, bom dia. A bela adormecida finalmente resolveu acordar, foi? É bom se preparar, isso aí foi brincadeira de criança perto do que vão fazer com você na cadeia — disse ela com indiferença, conduzindo-o para um carro de polícia próximo. E então, voltando-se para um segundo policial: — Coloca ele lá atrás. E pode esquecer, eu que vou voltar dirigindo.

— Ok, mas vai com calma, mulher — disse seu antiquado parceiro, rindo e abrindo a porta traseira do carro para o pedófilo. E completou o deboche: — Afinal você sabe que mulher no volante é perigo constante, né?

O dia estava mesmo rendendo. A incontrolável curiosidade voltou a tomá-lo. Satisfeito com a possibilidade de colocar à prova mais aquele ditado, estreou seu sorriso recém-desfalcado e sentou-se todo animado no banco traseiro da viatura.

sábado, 18 de maio de 2013

Procura-se um vilão

Este é meu último texto. Após o último ponto que acompanhar as palavras que se seguem, considero-me oficialmente aposentada. E se elas se apresentam apressadas e mal organizadas, é porque não sei até quando meu computador pode ser considerado totalmente inofensivo.

Ao longo de meus pouco mais de quarenta e cinco anos, dos quais dezoito dediquei às palavras, acompanhei diversos conflitos, guerras civis, governos autoritários, revoluções, golpes (e confesso que ao escrever isso sinto uma pontada de saudades do tempo em que as lutas eram travadas apenas por humanos). Combati em tantas dessas tragédias quanto meu corpo e minha alma me permitiram. Mesmo que de cada viagem eu retornasse com ambos um pouco menos íntegros – exceto daquela que me trouxe minha amada Ripley, da qual retornei mais completa –, segui lutando. Não na frente de batalha com as mãos segurando um rifle, é verdade, mas com elas debruçadas sobre um teclado. Os olhos sempre buscando a próxima tecla, e não o próximo alvo; a mente crítica e inquisidora, jamais submissa e manipulável. Se há uma coisa que eu não poderia prever quando decidi ser jornalista é que o que escreveria fora do trabalho alcançaria e afetaria mais pessoas do que meu trabalho em si, e assim ganhei – a princípio a contragosto – o título de “formadora de opinião”. Dizia que era um exagero, mas a verdade é que a responsabilidade me apavorava. Informar é uma coisa, opinar é outra e alterar o funcionamento da cabeça de outrem é uma terceira. Somente com o tempo percebi a importância e o potencial que minha posição oferecia, e foi quando passei a utilizar de minha influência o máximo possível para abrir os olhos das pessoas para o que de errado havia no mundo. Hoje minhas bochechas coram ao constatar o quanto era ingênua e patética.

Foi há cerca de um ano (quando nossa Terceira Guerra já contabilizava outros dois) que a epifania me ocorreu: a humanidade precisa de um vilão. A falta de um significado para a vida, de um propósito para nossa jornada, nos deixa inquietos. Melhor dizendo: os deixa inquietos. Sim, porque são sempre os homens (o gênero, não a espécie) que parecem competir pelo posto de animal dotado de razão mas incapaz de exercê-la. Brigam e se matam por crença, esporte, orientação sexual, terras, bens e, numa ironia que parece passar despercebida, por amor. Durante algum tempo, imaginei que as mulheres fossem mais pacíficas apenas por questões culturais e históricas, que fôssemos menos propensas a iniciar guerras simplesmente porque não nos foram dadas tantas oportunidades, já que entre a submissão de outrora e ter que cuidar da casa, dos filhos e do marido não devia sobrar muita ambição para arquitetar grandes planos. Porém, já faz algum tempo que conquistamos nosso espaço na sociedade e ainda assim garanto que pouquíssimas de nós vão para a cama pensando em formas de botar fim a mais vidas em períodos de tempo cada vez mais curtos.

E não deixa de ser curioso que os homens que abraçam a vilania se apeguem ao conceito mais estereotipado, unidimensional e entediante dela: a incansável busca por mais poder. Droga, a própria ficção já nos deu vilões mais interessantes do que isso. São crianças mimadas cujo desejo infantil soa quase como um grito de socorro para serem resgatados da mesmice do dia a dia. A paz é tediosa, e se de um lado temos os que se tornam ruins, do outro temos os que parecem acolher com gratidão o surgimento de um novo inimigo. Pensando nas pessoas que falam sobre Hitler, por exemplo, quase consigo captar satisfação por parte delas quando relatam os absurdos que ele cometeu. Não por acaso, Hitler é até hoje citado nos mais variados tipos de discussões. É gostoso odiar alguém que merece ser odiado; precisamos de pessoas ruins para nos enxergarmos como bons e do perigo para nos lembrar de dar valor ao que temos. Assim como em muitas obras de ficção, a história da humanidade precisa de antagonistas para ser interessante.

Mesmo que a paz não tenha em momento algum reinado absoluta, creio ser correto dizer que chegamos suficientemente perto disso. Algumas décadas atrás, quando as ações humanas finalmente despertaram o sistema imunológico do planeta, fomos obrigados a mudar algumas atitudes para conviver em harmonia com ele, e não a seu contragosto. A vontade do planeta não é negociável. Devíamos nos adaptar a ele em vez de tentar moldá-lo às nossas vontades. Caso falhássemos, morreríamos, e foi como se aquele período crítico nos tivesse acordado; como se a partir daquele momento, a consciência das pessoas tivesse se expandido; como se um número maior de pessoas tivesse a capacidade de vislumbrar o esquema maior das coisas. Como se aquela crise fosse o nosso monólito preto.

Por muito tempo, as coisas melhoraram. Ironicamente, foi nesse período de paz que mais desenvolvemos nossa tecnologia. A pobreza e a fome diminuíram, a expectativa de vida aumentou, o número de mortos em conflitos despencou e o nível de educação cresceu. O de felicidade, curiosamente, caiu. A tempestade é tão intensa quanto a calmaria que a precede, e na escassez de inimigos de carne e osso (falhos e frágeis, muito fáceis de derrotar), fomos buscá-los nas máquinas (inteligentes e resistentes, tornam as coisas mais desafiadoras e interessantes). Aparentemente o gênero de ficção científica não havia produzido obras suficientes que alertassem para o perigo de se conferir inteligência a um punhado de chips, fios e armas letais. Assim, há três anos, começou nossa derradeira luta.

De lá para cá, fomos incessantemente atacados de todos os lados e de onde menos esperávamos. Qualquer aparelho conectado à energia é uma arma em potencial. Por mais absurdo que possa soar, posso jurar que tem algo de animalesco na forma com que as máquinas lutam, como se tivessem adquirido o lado mais primitivo de seus criadores. Não diferenciam adultos de crianças, homens de mulheres ou mesmo humanos de outros animais. Minha profissão se tornou apenas a sobrevivência, pois textos passionais e revoltados não surtiriam qualquer efeito sobre as máquinas, e não era como se houvesse necessidade de alertar o mundo para uma guerra que já o estava destruindo. A população humana é hoje apenas um décimo do que foi um dia, e os que resistiram vivem em péssimas condições. Fauna e flora estão quase desaparecendo. Mesmo sem ter pelo que viver, nos agarramos à vida de forma instintiva. Corrijo-me novamente: eles se agarram. Pois no que depender de mim, o homem (aqui, sim, a espécie) não sobreviverá por muito mais tempo.

Que eu tenha me tornado o inimigo de que eles tanto necessitam, considero apenas uma grande ironia. Que eu seja uma mulher e, portanto, a primeira grande vilã, considero uma divertida motivação. Durante o último ano, coletei o máximo de informações possíveis acerca de todas as principais locações da resistência humana. Ao concluir este relato, parto para a principal base de meus antigos inimigos para oferecer minha aliança. Não que elas precisem de mim. Até agora foi carnificina, então seria apenas questão de tempo, e disso as máquinas dispõem. Mas eu preciso delas. Preciso da satisfação de participar da extinção de minha própria espécie, pois culpo o criador, não a criatura. Toda máquina tem seu propósito, que inclusive foi garantido pelas nossas mãos. Comparando com a existência vazia dos animais, faz mesmo mais sentido que a vida animal dê lugar à existência puramente racional das máquinas.

Caso as resistências saibam de minha traição – e farei questão de que saibam –, tenho certeza de que me acusarão de insanidade, de falta de empatia e de ter perdido qualquer vínculo com a humanidade, alheios ao fato de que esses efeitos foram causados um ano atrás pelos mísseis que levaram Ripley à morte, durante um ataque inesperado das máquinas a uma de nossas bases.

Ah, minha querida e doce Ripley... cujos pedaços que consegui reunir enterrei com minhas próprias mãos. Sensível e com um fraco por simbolismos, seu desejo era ser cremada e ter suas cinzas espalhadas ao mar; fazer parte do todo. Dadas as circunstâncias, supus que ela compreenderia minha incapacidade de realizar seu desejo, até porque eu tinha créditos de sobra pelos outros tantos que realizei com muito prazer durante sua vida. Prazer... Sentimento que não sou mais capaz de sentir depois de sua partida prematura. Foi há apenas um ano e já parece que foi em outra vida. Mesmo assim, sei que levarei aquele dia comigo pela eternidade. Carne, sangue, terra e lágrimas formam uma combinação muito única, marcante. A vida subitamente se tornou tão frágil que em determinado ponto mal podia acreditar que aqueles pedaços, antes unidos, puderam abrigá-la; que aquele corpo pertenceu a alguém capaz de amar e ser amado.

Quanto mais fundo cavava sua cova, mais pensava no vilão do qual eu necessitava para seguir em frente. Vasculhando destroços nas redondezas à procura de uma lápide improvisada, encontrei um pedaço de metal com um lindo desenho de chamas, e após tê-lo fincado ao lado de onde enterrei Ripley (que certamente se divertiria com o simbolismo), tornou-se finalmente claro o novo propósito da minha vida: acabar com todas as suas outras formas.

terça-feira, 30 de abril de 2013

O viajante plagiador

Ele estava travado. Nenhuma gota de pensamento. Mas queria produzir. Precisava produzir.

Tinha grande afeição pelo conceito de legado artístico. Talvez tão grande quanto sua incapacidade de criar um.
Tantas e incríveis histórias já contadas. Verdadeiros tesouros que atestam a fantástica capacidade humana de criar.
Por que uma delas não poderia ter sido dele? Em todo canto, pessoas contando histórias surgidas em sonhos. “Em sonhos, pelo amor de Deus!”. Não parecia justo.

Imaginou por um momento as grandes ideias pairando no ar, à procura de uma cabeça na qual pousar para através dela tomar forma e estilo.
Nenhuma delas disposta a agraciá-lo, aparentemente.
“Talvez todas as boas ideias já tenham se esgotado. O ‘novo’ não passa de uma cópia de uma cópia de uma cópia”, concluiu, insegura e ingenuamente. Sabia que não acreditava naquilo. Era quase uma regra: a cada boa história lida, sua admiração pela pessoa que a escreveu rivalizava apenas com a inveja que sentia da mesma. “Por que não pensei nisso antes?” era uma constante.

Desejou, como nunca antes, uma máquina do tempo.
“Hitler?”, pensou. “Nah, deixe-o ter sua ‘festinha’.”
Suas motivações não seriam mesmo nobres nem éticas, fingir pra quê? Para quem?
Voltar no tempo para roubar o trabalho alheio não combina com heroísmo.
Não, ele não teria boas intenções. Desejava o sucesso, o reconhecimento por um trabalho bem feito. Mesmo que por outra pessoa, mas feito. Seu nome na capa bastaria.

Uma onda de calor desconfortável percorreu seu corpo. Ele a conhecia muito bem: sua insegurança. E se acidentalmente destruísse o trabalho do qual se apropriou? Seriam as grandes obras assim consideradas justamente por serem feitas por quem foram?

Sacudiu o pensamento negativo da cabeça. Passou a buscar na memória pelos trabalhos favoritos, dos quais teria orgulho de se dizer autor. “Talvez eu poderia até... melhorá-los?”. Nova onda de calor.

Lembrou que sempre quis conhecer seus ídolos. A viagem no tempo o permitiria se tornar cada um deles. Muito mais interessante.

Seria Lispector, Machado de Assis, Jane Austen, Veríssimo e Drummond. Seria Arthur C. Clarke, Stephen King, Carl Sagan e Allan Poe.
De Tolkien a Guimarães Rosa. Versátil assim.

E lembrou-se do Cinema. Grandes histórias e escritores por lá também. Não tinha muito gosto pela área, mas tinha suas preferências.
Teria a racionalidade de Nolan e a excentricidade de Tarantino. A complexidade de Charlie Kaufman e o sarcasmo de Woody Allen. Seria ambos os irmãos Coen num corpo só.
Iria para o começo dos anos 1980 e escreveria De Volta para o Futuro. Um orgasmo metalinguístico.

Consideraria até mesmo voltar alguns milhares de anos para escrever a Bíblia. Afinal, qual seria a sensação de ser o autor do conto de fadas mais vendido de todos os tempos? “Talvez até atualizá-la?”. Nenhum calor se manifestou.

Não saberia dizer quanto tempo ficou escrevendo na cabeça a própria versão do que seus ídolos colocaram no papel.
“Só que máquinas do tempo não se vendem por aí”, refletiu com sabedoria. Era verdade. Objetos fictícios tinham o costume irritante de não existir. Com este contratempo, abandonou seus devaneios. Alheio até mesmo ao fato de que estes, com algum esforço, poderiam originar uma história.

E foi atualizar o seu blog.