quinta-feira, 11 de junho de 2015

Pontuação

— O travessão tá errado aqui, cara. Ele não serve pra isso. Serve pra indicar diálogo ou (assim como os parênteses [e dentro deles os colchetes]) pra comentar ou acrescentar informações ao texto — uso que não é muito comum em textos mais informais.
— Ah, saquei. E pra que servem os dois-pontos?
— É muito simples a função dos dois-pontos: eles são usados pra indicar que em seguida alguma coisa será explicada.
— E o ponto de interrogação?
— Caramba, só falta me falar que também não sabe pra que serve a exclamação!
— Ah, pode pular a exclamação porque essa aí eu tenho quase certeza absoluta que sei.
— Tá bom, olha, vamos dar uma passada rápida pelas pontuações básicas, ok? Começando pela função das reticências, que...
— Servem pra marcar a interrupção de uma fala que ainda não estava terminada, pra indicar pausas longas numa fala enquanto se pensa no que vai falar e pra... e pra... hãã...
— E pra deixar alguma ideia sugerida ou implícita na fala, interrompendo-se antes de concluir. Mais ou menos como a sua alfabetização... Prosseguindo, as chamadas “aspas” são usadas pra destacar um exemplo ou uma citação que será feita. Por exemplo: “Foi aí que o professor de português falou: ‘Aspas simples são usadas dentro de aspas duplas.’ Só que a pontuação nesses casos é uma confusão, e nem mesmo o professor soube dizer se o ponto fica dentro ou fora das aspas”.
— E a vírgula, serve pra que mesmo?
— A vírgula, como você já deveria saber, indica uma pausa breve na leitura do texto e serve para diversas situações, como listar informações, separar frases encadeadas entre si e, assim como o travessão e os parênteses, para separar o aposto, entre outras funções. A vírgula é usada até pra separar o vocativo, cara! Ah, e muita gente acha que vírgula é a mesma coisa que ponto e vírgula; porém, o ponto e vírgula indica uma pausa média na leitura e é utilizado pra interromper um raciocínio pra depois continuá-lo, quase que começando uma frase nova, sabe? Serve pra separar uma série de itens elencados, e costuma aparecer bastante antes de conjunções, tais como: entretanto; contudo; todavia; logo; portanto; assim etc.
— Ah, mas agora você foi sacana também. Dava muito bem pra ter usado vírgulas ali, vai.
— Sacanagem é um sujeito como você ter recebido um diploma do ensino médio. Enfim, é isso, acho que cobrimos o básico. E agora chega dessa história porque detesto metalinguagem. Baita dum recurso vazio e pobre de se usar assim pra qualquer coisa.
— Metalinguagem. Meta... metalinguagem... Sim, claro, é verdade... Meta. Linguagem. Metalinguagem. Muito pobre mesmo, tem razão... Se escreve M-E-T-A-L-I-N-G-U-A-G-E-M, se bem me recordo. Vem da junção de “meta” com “linguagem”... Rá, quem ainda usa?! Pff... Metalinguagem.
— ...
— Mas vem cá, o que é mesmo met...?
— Ahhh, não! Desisto de você, cara, não quero mais papo contigo.
— Mas por quê?
— Porque não. E ponto-final!
— Droga, o único que eu sabia tava errado. Jurava que esse aí era o de exclamação.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Uma história

Não se vê por aí, este tipo de história. Provavelmente porque não funcionaria. Uma história em que conflitos não surgem, mudanças não acontecem. Eventos não se sucedem. Ideias não têm corpo. Sentimentos não têm vez. Nem voz. Uma história sem protagonista, sem antagonista. Sem personagens. Não se odeia, não se ama. Nem comédia, nem drama.

Uma história que não tem início por não ter de onde sair, que não tem meio por não haver um para a conduzir, que não tem fim por não ter aonde ir. Com nada interage e é indiferente ao que a rodeia. Por nada é permeada e nada ela permeia. Uma narrativa que não cria expectativa, que não tem resolução. O próprio tempo em suspensão.

Um conto que nada conta. Um narrador que nada narra. Por muito tempo, uma história assim não se mantém, e já vão faltando palavras que permitam-lhe ir além.

Nada nesta história existe. E, ainda assim, a existência desta história persiste.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Sozinhos no Universo

Entrou em casa e largou suas coisas numa poltrona, avisando em voz alta que havia chegado. Sem ouvir resposta, foi até a cozinha lavar as mãos. Pela janela em cima da pia, ele a viu no alto da pequena colina próxima, olhando pensativamente para as estrelas. Saiu para a noite clara pela porta dos fundos e atravessou o gramado. Subiu calmamente a colina e parou ao lado dela.
— Ficou sabendo da descoberta de hoje? — perguntou ela tranquilamente, sem tirar os olhos do céu.
— Do planeta? Fiquei, sim. Praticamente do mesmo tamanho do nosso, está na zona habitável de sua estrela e possui água no estado líquido. Excitante, não?
Ela virou para olhá-lo e sentiu um calor no peito ao vê-lo com um sorriso acolhedor no rosto.
— Pena que esteja tão longe. Qual a distância mesmo? — perguntou ele.
— Não lembro exatamente, sei apenas que uma simples troca de mensagens levaria milhares de anos para acontecer. Se houver vida inteligente, claro — adicionou rapidamente, falhando miseravelmente na tentativa de parecer ponderada.
— Tarefa para nossos descendentes, então — disse ele, acariciando a barriga dela.
— Ainda assim, na escala astronômica, a distância é ridiculamente pequena. Já imaginou? Vida na nossa galáxia. — Ela voltou a olhar para o céu e ele pôde ver o brilho em seus olhos. — Não num lugar longínquo do Universo, na nossa galáxia! No nosso “quintal”. Se a vida (mesmo com centenas de bilhões de galáxias, cada uma com centenas de bilhões de estrelas, que por sua vez possuem sabe-se lá quantos planetas em suas órbitas) achar por bem aparecer num planeta vizinho ao nosso, seria seguro supor que o Universo inteiro esteja transbordando de vida! Em todos os cantos e de todas as formas. Uma expansão gigantesca dos nossos horizontes. Imagine as diferentes culturas, as diferentes crenças, as histórias das civilizações, as espécies e anatomias, as línguas, as guerras e sistemas políticos, o desenvolvimento científico e tecnológico, as invenções, os bons e maus momentos, os heróis e os vilões, os artistas e as obras.
— Nem me fale, querida. Ainda tenho uma infinidade de livros para ler que foram escritos por aqui mesmo e você aí querendo aumentar a lista indefinidamente.
— Besta — disse, rindo. Ela baixou os olhos para o chão e subitamente ficou séria, esforçando-se para acreditar em suas próximas palavras: — Tenho certeza de que alguém em algum lugar do Universo está neste momento olhando para as estrelas e pensando exatamente nas mesmas coisas.
Mas ela não tinha. Como poderia quando o Universo respondia apenas com o silêncio? Continuou olhando para baixo e se deixou tomar pela ideia da solidão e do vazio cercando-os. Percebendo seu conflito interno, ele logo tratou de distraí-la.
— Olha que bonito, amor. Whovian e Trekker já estão se pondo — disse ele, apontando para o horizonte.
A noite foi ficando mais escura e uma brisa começou a soprar. Ainda no alto da colina, os dois entrelaçaram suas caudas carinhosamente e observaram em silêncio as duas luas tocarem o horizonte e desaparecerem sob ele.

domingo, 25 de agosto de 2013

The Newsroom e o jornalismo

The Newsroom é uma série que acompanha os bastidores de um programa de notícias apresentado por Will McAvoy. Interpretado por Jeff Daniels, o Debi de Debi & Lóide (sério), Will é um âncora extremamente arrogante e, contraditoriamente, muito inseguro. Quando uma antiga companheira, McKenzie, volta a fazer parte de sua vida, ele se vê desafiado a sair de uma situação confortável para assumir riscos em nome de uma boa causa.

A série aborda o dia-a-dia da redação de notícias e as relações entre os integrantes da equipe desse programa fictício, usando como pano de fundo acontecimentos reais para desenvolver todo o drama entre os personagens. Um esquema tipo Titanic. O elenco conta também com Emily Mortimer, Dev Patel (mais conhecido como "o menino de Quem quer ser um milionário?"), a simpática Olivia Munn e o carismático Sam Waterston e seu aparente Parkinson seletivo na cabeça.

Com um delay de aproximadamente dois anos entre o ano em que se passa a série e o presente, os roteiristas têm tempo de escolher bem e tratar dos assuntos mais polêmicos de um passado recente. Um derramamento gigante de óleo no oceano, ataques de drones no Oriente Médio, a morte de Bin Laden (ou “morte”, para alguns), a morte de Trayvon Martin por George Zimmerman, o Tea Party, a homofobia, a laicidade do Estado e muitos comentários absurdos feitos por políticos em campanhas, discursos, etc. Enfim, um prato cheio para um pessoal que acha que algumas bizarrices são exclusivas do Brasil e que tudo nos Estados Unidos é lindo e maravilhoso. E tem algo de fascinante em acompanhar as reações desses personagens enquanto eles se tornam cientes de acontecimentos importantíssimos dos quais o espectador já tem conhecimento; a busca por diferentes fontes, a confirmação de histórias, a excitação e o espanto com um furo de reportagem. É como assistir novamente a um filme acompanhado de amigos que nunca o viram e ficar observando as reações deles.

Mais recentemente, o movimento Occupy Wall Street começou a ser abordado em The Newsroom, e é interessante notar as semelhanças que a onda recente de protestos no Brasil tem com esse movimento. Toquei nesse ponto porque não tem como pensar nos protestos sem pensar no papel que a mídia tem (ou deveria ter) nisso tudo, e é aqui que reside a força da série e minha admiração por ela.

Acima de tudo, o destaque de The Newsroom fica por conta da ideologia de um jornalismo que não se vê por aí, quase utópico. O objetivo dessa equipe é reportar fatos e analisá-los sob todos os aspectos, prestar um serviço público e proteger os interesses do povo, independentemente dos próprios interesses e de interesses políticos ou corporativos. É tocar na ferida e dar tapa na cara de muita gente, sem cerimônias. A vontade que esses personagens demonstram, o caráter, o compromisso com a verdade, seja ela qual for, são realmente inspiradores. Ainda mais quando se vê a parcialidade escancarada de tantos veículos de grande alcance.

Together they stand alone. Diz muito, não?

E se já é um sonho infantil querer uma série brasileira de qualidade que faça o mesmo com acontecimentos locais, nem sei do que chamar o desejo de ter um jornalismo desse nível na nossa tão manipuladora mídia.

Desculpa, mas esse é o verdadeiro

Eu nunca consegui

Minha suja contribuição para o meme one does not simply.

sábado, 10 de agosto de 2013

A mão da espada

Já tem algum tempo que eu tenho um convênio médico. E já tinha algum tempo que eu — preguiçoso e grande defensor da ideia de que “quem procura, acha” — não fazia qualquer uso desse convênio, nem mesmo para exames preventivos. Oras, vai que o médico, ouvindo meu coração com o estetoscópio, vira e fala que tem um tumor gigante na minha cabeça? E que a forma de tratamento é amputar minha perna esquerda e esperar que ele escorra pelo buraco que ficar? Que meu cérebro é na verdade apenas 5% cérebro e 95% tumor? Ok, pelo menos isso explicaria bastante coisa...

Mas não tem problema, porque a vida achou que era muito dinheiro jogado fora e deu um jeito de fazer com que eu aproveitasse o convênio de algum jeito. Ela resolveu que eu ia quebrar um osso da mão jogando futebol cunzamigo. E não digo isso para pagar de o fodão que masculamente se machucou jogando bola, e que com muito orgulho superou a dor e continuou a partida, merecidamente recebendo uma medalha de “honra ao mérito” que custa um real e de ouro só tem a cor, com trompetes tocando ao fundo.

Não. Estou falando do cara que é considerado o “café com leite”; o “teleton”, se preferir. Do cara que sabe que os menos habilidosos que possuem o mínimo de sensatez devem ser goleiros durante a maior parte do jogo, esperando até que os outros se cansem e estejam com os pés cheios de bolhas para, aí sim, se arriscar a ir para a linha e tentar marcar seu golzinho. Estou falando do cara que descobriu que a conta chute forte + goleiro que vai na bola com mão de alface = encostar o dedão direito na parte de trás do pulso direito. Dando um significado todo novo à pergunta que já ouvi de alguns professores que não gostavam de calculadora na faculdade: “Puxa, mas vai te quebrar a mão se você resolver essa equação sozinho?”. Sim.

Quando ficaram sabendo qual osso quebrei, ouvi de três médicos diferentes e da minha avó (que já foi enfermeira) quase que invariavelmente a mesma frase: “Tanto osso no corpo para quebrar e você vai quebrar logo esse?”. Sabe por que falaram isso? Porque é o pior osso para se quebrar no corpo, e é bem comum precisar de cirurgia. E o malandrinho costuma precisar de umas boas 10 semanas imobilizado para se curar. Estou há duas semanas com o gesso; só faltam DOIS MESES.

Sabe o que significa ficar sem poder usar a mão direita por dois meses e meio? Sendo destro? Poxa, é a mão da espada, como diria Jamie Lannister. Significa que eu não consigo fazer nada direito. Significa usar a mão esquerda para o mouse E para digitar, o que desacelera “um pouco” a produtividade no trabalho. Significa que levo o triplo de tempo para digitar e tenho que escolher bem o que vale a pena postar (e o fato de que este post foi publicado diz algo sobre o meu conceito de “valer a pena”). Significa que eu não consigo sequer assinar meu nome, porque não tinha ideia que a esquerda era tão imprestável assim (não que eu escreva muito com caneta ou lápis; uso o Word até mesmo para anotar recados de telefone, mas seria bom ter a possibilidade).

Significa que a caceta desse gesso vai assistir comigo à última temporada inteira de Breaking Bad, que nem começou ainda. Significa também ficar dois meses e meio sem envolver minha genitália com a mão que vem sendo aperfeiçoada na tarefa durante toda minha vida (seu recalque bate na minha mão e quebra meu osso na tela do computador e volta na sua cara). Significa não conseguir me limpar direito. Significa tomar banho por dois meses e meio sem nunca ficar de fato limpo, porque enquanto se lava o resto do corpo, o braço e a mão do sujeito que sofre de hiperidrose ficam confinados numa toalha e num saco plástico, e à altura em que termino, o aroma resultante da “sauna localizada” faz com que eu me arrependa de ter ido para o banho para início de conversa. Em noites frias, significa ficar com a sensação de se estar com o antebraço mergulhado numa piscina fria, ou de se estar pescando no gelo usando a mão (eu imaginei que o gesso ajudaria a aquecer por cobrir a pele, mas o safadinho é bem frio e aparentemente é imune a roupas de frio e cobertores). Significa ficar com o dedão imobilizado na posição de “joia” durante um bom tempo. Por dois meses e meio, aparentemente tudo estará “ok” para mim.


Eis como me sinto.

Só agora percebo como tudo era ótimo antes de isso acontecer. Mas detesto todo aquele papo de que não se deve reclamar quando tem gente numa situação pior que a sua (vi um cara no hospital que cortou fora três dedos numa máquina de fazer caldo de cana; receita nova, pelo jeito). Até porque seguindo esse raciocínio, apenas uma pessoa no planeta poderia reclamar da vida, que seria a pessoa na pior situação possível. Alguém que perdeu um braço não pode reclamar porque outro alguém perdeu os dois, e o que perdeu os dois não pode reclamar porque um terceiro alguém nasceu com quatro e não consegue usar nenhum... e assim por diante até chegarmos à pessoa mais ferrada, a única que pode reclamar, que provavelmente é alguém que mora na Índia ou algo assim.

Se tem uma coisa que nunca se esquece é o nome de um osso que se quebra. O nome desse é escafoide.
É... fodeu mesmo. (Péssimo trocadilho, eu sei, mas aposto que você também faria. E outra, me dá um desconto vai, afinal não sei se já falei, mas eu quebrei um osso.)